ADEGA

Inicio / Novas / Todas / O Ecofeminismo, un artigo de Adela Figueroa

08-03-2019

O Ecofeminismo, un artigo de Adela Figueroa

Adela Figueroa, presidenta da Fundación Eira e ex-presidenta de ADEGA

Segundo Mary Mellor o eco-feminismo é um movimento que visa uma conexão entre a exploração e degradação do mundo natural e a subordinação e opressão das mulheres. (Mary Mellor: Ecologia e feminismo). As reportações do pensamento crítico feminino e o pensamento ecológico oferece-nos a oportunidade de nos defrontar-mos a dous problemas sócio ambientais: a injusta situação de domínio e ocultação das mulheres, e o perigo da dominação da natureza, típicos ambolousdous da sociedade patriarcal ligada ao paradigma do homem como amo e guerreiro (A. Puleo, El Ecologista, 2002).  
Na sequencia destas afirmações entendemos o eco-feminismo como uma corrente de pensamento e de ação visando mulheres ativas para preservar os recursos naturais, e mulheres em luta para preservar a terra, a paz e o alimento. Analisemos estes dous assertos.

Mulheres ativas

A natureza fornece-nos de abrigo e alimento. Estes dous recursos primários resultam imprescindíveis para assegurar a vida nossa e da nossa descendência. O eco-feminismo representa o compromisso da mulher com a Terra e também com a vida que nela se desenvolve. Não é somente procurar alimento e abrigo. É garantir que isto vai estar ao alcance de nossa filharada.  

Ativas
refere-se a isso. Implica trabalhar sobre os recursos primários para que estes perdurem mais aló da nossa temporalidade vital. É um conceito oposto ao de rapina. Ao da simples extração, ou a depredação. É uma conceção vital que implica ao intelecto mais finamente humano. Aquele que compromete a ideia de futuro. Este compromisso e este paradigma necessita educação, disciplina e preparação. Ter-mos assimilado que existe um tempo futuro, precisa de toda uma estrutura social e da complexidade duma normativa partilhada. Sermos seres previdentes é um resultado de sermos seres inteligentes e sociais.  

A superação do estado de recoletores-caçadores, pola invenção da agricultura, instaura um novo regime nas comunidades humanas. Por uma parte faz-se necessário controlar os tempos, passado, presente e futuro, conhecendo as variações estacionais, condição imprescindível para o controlo das labores agrícolas. Por outra parte aparece um novo elemento: o conceito de propriedade, ligado à posse da terra e do gando que vem de ser domesticado. Em case todas as culturas humanas a mulher passa a ser uma posse mais da estrutura produtiva. O homem tem de se assegurar que a descendência que nasce dela é sua e para isso encerra a mulher sob diferentes crenças e religiões. 

Também o homem precisa de mão de obra que trabalhe a terra. Para isso resulta mui prático ter a metade da população submetida e sem direitos como elemento produtor. As diferentes religiões com seus tabus colaboram neste encerramento imaterial das mulheres, mais tão efetivo como as grades de natureza física. Em quase todas as culturas as mulheres são as responsáveis das crianças e de fornecer de alimentos à família polo cuidado das hortas. Por isso as mulheres sentem-se responsáveis da preservação dos recursos. Se calhar tem algo a ver com a sua capacidade de “dar vida”.  

É necessário e justo virar o paradigma estabelecido por Hegel e comummente admitido, ainda hoje em muitas sociedades, que baseia a inferioridade da mulher com seu “primitivismo” estabelecido pola forte ligação da mulher com a natureza. Este paradigma justificava a minoria de idade das mulheres perante a supremacia do varão porque eram “mais próximas” do natural. Consideradas como incapazes de elaborar pensamentos abstratos e complexos.  

Mas agora afirmamos que esta ligação com a Natureza é digna, importante e indispensável para garantir a preservação dos recursos naturais e para lutar em defesa da Terra, da Paz e do alimento. E, pelo contrario, exige um pensamento muito mais elaborado que aquele que se dirige a simples pedação da Terra.  

O sistema patriarcal que glorifica ao “macho” dominante, predador e sem necessidade de prever futuro que garanta a sobrevivência dos descendentes, está baseado na grande falácia. Na grande mentira. Os sistemas sociais humanos mantém-se pola exploração injusta e inclemente das mulheres e pola exploração da Terra sem qualquer previsão de futuro. O sistema Patriarcal dominante ainda hoje é destrutor. Responde mais à “estratégia” de Terra Queimada, primitiva e irreflexiva, que a aquela da previsão do futuro que é produto da mais fina inteligência.  

Do ponto de vista ético-moral, o sistema patriarcal é o cumprimento do chamado “Mandado Biblico de “Crescei e multiplicar-vos, enchei e dominai a Terra (Gen,1-28) defendido polas religiões, nomeadamente a católica e outras monoteístas que deram o substrato ideológico da civilização occidental (mas não só).

Mulheres em luta

O segundo asserto o que diz a respeito de mulheres em luta faz apelo à defensa ativa contra a destruição dos recursos naturais. Contra a depredação irresponsável destes que os vai levar ao esgotamento e por em risco comprometendo a sua renovação.  

Na atualidade assistimos ao confronto de dous sistemas económicos em luta aberta: A economia Capitalista que visa o enriquecimento pessoal e a economia do Bem Comum, ou dos comuns que visa a preservação do “comum” mediante uma gestão co-partilhada. A economia capitalista é indissociável do sistema patriarcal, aquele que procura os máximos benefícios com os mínimos custos. Que identifica o exito pessoal com o enriquecimento que precisa identificar a descendência para garantir sua herdança e empregar “mão de obra” barata como pode ser a da mulher.  

A mulher presa a ele por instituições-cárcere como o matrimonio. A femia trabalhando gratuitamente polo sustento, abrigo e segurança da família e o grupo social. O Homem, para manter o património dentro da sua herdança genética precisa garantir que os filhos som dele. O mais prático para isto é encerrar a mulher, bem seja com muros físicos ou tabus morais. As atitudes díscolas pagar-se irão com a perda da socialização. O desprezo da sociedade.

O bem común

É significativo que este modelo económico, que tenta partilhar a gestão dos “comuns” entre a população, seja defendido por numerosas mulheres na história. A defesa do Bem Comum imbrica-se com a defesa da natureza e dos recursos naturais, e com a inteligência superior que é capaz de elaborar horizontes de futuro. Este é um conceito que pode ser enfrentado desde diferentes pontos de vista,como são o cultural, o material, o económico e o político, todos eles imbricados e dificilmente separáveis. Mas como estamos analisando o eco-feminismo, vamos tratar o que atinge aos bens materiais sempre sabendo que nenhum destes bens podem ser separados claramente entre sim. Os rios, as fontes, os regatos pequenos e grandes, os mares, a terra, for ela de labor ou não cultivada, as plantas e os animais. O ar que respiramos a água que bebemos ou onde nos lavamos e cozinhamos, as múltiplas e diferentes paisagens que nos acocham, isso tudo faz parte dos Bens Comuns.  

A economista americana Elinor Ostrom levou o prémio Nobel de economia em 2009 polo seu trabalho “Análise dos recursos partilhados, o Governo dos bens Comuns”, onde demonstra que uma economia baseada na Governanza dos “Comuns” é muito mais eficaz e reparte melhor a riqueza entre a população que a economia Capitalista que fomenta o individualismo e prima o êxito individual.  

A riqueza do conjunto aumenta e acaba por ser em beneficio de toda a gente. Para Ostrom, o governo dos comuns vem implementado por instituições que são produto dumas normas que o próprio grupo se dá e que implicam duas características importantes: o incumprimento das normas carreia sanções, e a reciprocidade implica o retorno dos benefícios partilhados polos indivíduos que usufruem o Bem Comum. Desde o meu ponto de vista estas duas características são fundamentais. Eu penso nos montes vizinhais ou de mão comum, como um bom exemplo de economia do Bem Comum. Quando bem gerido o monte dá benefícios aos comuneiros e a comunidade como: criação de emprego, melhora dos caminhos, luta contra o lume, etc. E ainda representa um beneficio ambiental sustentável.  

Outra característica que Ostrom sinala é a importância do conhecimento entre os elementos que partilham o Bem, cousa que ajuda para a confiança mutua. Isto é, a proximidade na toma de decisões favorece que estas sejam mais acertadas e produzam mais benefícios para o conjunto.  

Como podemos ver o Capitalismo desembocado que hoje estamos a viver é tudo o contrario a isto. A economia mundial é um macro sistema que gera perda de energia e falta de controlo o que tem como consequência o aumento de entropia do sistema: lixo, insegurança,destruição irreparável do ambiente e dos recursos naturais, perda de direitos laborais, exploração, trabalho infantil... O aumento desmedido desta entropia está a produzir um grande desajuste que, segundo Carlos Taibo, conduzir irá ao colapso do sistema. Já o estamos a perceber, imersos no processo de Câmbio Climático, malia o negacionismo que disso fazem alguns representantes do sistema capitalista e patriarcal que, na atualidade, governa a maior parte da Europa, América e Países Emergentes. A acumulação de lixo produto deste sistema entrópico é o sintoma mais grave e visível.

Lutas feministas e mártires

Entre as lutas femininas em defesa da Terra gosto de por em destaque a das mulheres da Tribu Chipko, na Índia. O Movimento das mulheres Chipko tem um significado fortemente feminino e ecológico. Abraçadas às árvores das suas florestas opuseram-se a que estas fossem cortadas numa tala massiva. Os homens defendiam o trabalho de corta por um salário imediato. Mas elas razoaram que sem árvores iriam degradar-se as fontes de água para regar as hortas, e para o uso doméstico, e ainda a erosão iria alastrar a terra da montanha para os vales arruinando as culturas que garantiam o sustento a longo prazo. Foi um enfrontamento de mulheres com visão de futuro e ligadas a natureza contra seus homens que visavam unicamente dinheiro rápido sem prever as consequências dos seus atos. Foi um confronto entre a inteligência provisora e fina em oposição à imediata da depredarão. Aqui Engels e a ideia dominante sobre a deficiência intelectual das mulheres teria perdida a batalha intelectual. Elas ganharam a batalha material e os bosques foram preservados. A estas mulheres chamaram-lhes Borboletas de aço, pola sua resistência e sua finura.  

No mundo da teoria económico- ambiental destaca também GRO HALEM BRUNDLAND Ministra de Ambiente e também primeira ministra de Noruega e presidenta da Comisão Brundland da organização das nações Unidas dedicada ao medio ambiente e a sua relação com o progresso (1983-1987). O Informe Brundland (Nosso Futuro Comum) definiu o termo económico ambiental de “Desenvolvimento Sustentável”. Hoje manipulado pola sociedade capitalista que nos domina, mas que de inicio marcou uma linha a seguir a respeito do controlo das atividades extrativas e industriais e de mau trato ao ambiente.  

Outra mulher transcendental na defesa do ambiente e das mulheres, na África, exemplo para o mundo, é Wangari Mathai, prémio Nobel 2004 e ministra do ambiente de Kenia. Foi responsável pelo programa o “Cinto Verde” que conseguiu travar o avanço do deserto, fornecer matéria vegetal em abundância e regular as recursos hídricos com a plantação de milheiros de árvores, feito maioritariamente por mulheres.  

Na India Vandana Shiva preconiza: Que nenhuma mulher seja violada. Que nenhuma espécie desapareça. O seu discurso pode ser um compêndio de todo o declarado anteriormente: “Para mim, eco-feminismo é, basicamente, primeiro reconhecer que há uma confluência: do poder, da cobiça, do mercado, do capitalismo e da violência. Então, primeiro é reconhecer isso e segundo é reconhecer nosso próprio poder, porque o capitalismo e o patriarcado declararam que as mulheres sejam passivas e que a natureza morra. O eco-feminismo reconhece que a natureza não só está viva, mas também é a base de toda a vida e que somos parte dela. E compreendendo que nós, as mulheres, temos um grande potencial; mas um potencial diferente, não violento, não de dominação e morte, mas sim de cuidar e compartilhar. A criatividade e a compaixão das mulheres é possível em todos os humanos, porque não creio no determinismo genético. Então, este é realmente o poder do eco-feminismo”.  

Em todo o mundo vemos ações valentes e decididas de mulheres na defesa do “Comum”, dos bens naturais e da sua conservação. Isto é perigoso porque colide contra os interesses do capitalismo, machista, destrutor e predador que procura o beneficio rápido sem previsão do futuro. Berta Cáceres foi uma destas mártirs pola sua defesa do rio Gualcaque, rio sagrado dos Lencas. Rosane Santiago Silveira, de 59 anos, lutadora de causas ambientais, culturais e de direitos humanos foi brutalmente torturada e assassinada no sul da Bahia, na cidade de Nova Viçosa, no dia 29 de janeiro 2019. São apenas alguns exemplos de mulheres mártires na defesa do ambiente património comum. Muitas outras no calado sofrem desprezo repressão e silencio.

Rosalía de Castro

O eco-feminismo, na Galiza tem longa tradição já manifestada pola nossa devanceira Rosalia de Castro. Sua voz sempre se ergueu em defesa das causas do comum, entre as que não esquecia o ambiente. Ela foi a única em protestar perante a destruição das carvalheiras (Los robles, En las Orillas del Sar):  

Bajo el hacha implacable

Bajo el hacha implacable, ¡cuán presto

en tierra cayeron

encinas y robles!;

y a los rayos del alba risueña,

¡qué calva aparece la cima del monte!  

Sua protesta contra a destruição do bosque de Conxo foi a única que se ergueu face a ignomínia provocada polo Cardeal Payá recentemente chegado a Compostela: A Poesia “Jamás lo Olvidaré” (En las Orillas del Sar) é todo um alegato ecologista e, também feminista, que nos deixa ironicamente com esa simples frase <porque gime asi importuna esa mujer?>:  

Mas nosotros
si talan nuestros bosques
 
que cuentan siglos
-quedan ya tan pocos-…

 (¿Porque gime así importuna esa mujer?)...  

Mas oh!, Señor a permitir no vuelvas
Que de la helada indiferencia el
soplo
apague la protesta en nuestros labios,
Que es el silencio hermano de la muerte
 
Y yo no quiero que mi Patria muera

Sino que , como Lázaro,
       ¡Dios bueno!
Resucite a la vida que ha perdido;

Y, con voz alta, que a la gloria llegue,
Le diga al mundo que Galicia existe,

Tan llena de valor cual tu la has hecho
Tan grande y tan feliz cuanto es hermosa

Deixo este alegato rosaliano com expoente da defesa do ambiente polas mulheres e como mostra da rebeldia necessária perante a injustiça, seja esta contra os seres humanos ou contra a natureza.

ADEGA / Asociación para a defensa ecolóxica de Galiza
Travesa dos Basquiños, 9-Baixo 15704 Santiago de Compostela
Tlf/Fax: 981 570 099 Email: adega@adega.gal